Vale tudo
Por: Ana de Angelis, Davi de Almeida, Lucas Veras e Sophia Pacheco
“Trazer novas fronteiras na educação médica, e ciência, para um mundo melhor”, foi assim que Thiago Sayão, CEO da Clariens Educação, definiu a visão do grupo em um dos únicos vídeos publicados pela empresa em seu canal no Youtube. Na mesma ocasião, ele explica que essa percepção surge após a compra da primeira universidade do grupo, a Medicina FTC, em Salvador (BA), em junho de 2022, segundo o site da empresa. A aquisição da universidade representa o início de um empreendimento, ainda jovem em 2026, no mercado, em expansão, de educação médica no Brasil.
O “mundo melhor”, defendido por Thiago e pela gestora que comanda, é operacionalizado de forma simples: a Clariens Educação, assim como a Afya, é uma holding que desde 2022 faz a compra de instituições de ensino médico já existentes pelo Brasil e passa a gerí-las, investindo em infraestrutura e reorganizando o currículo pedagógico de cada uma das faculdades adquiridas. Após a obtenção da Medicina FTC, ela passou a gerir outros quatro estabelecimentos de ensino superior: Unesulbahia em Eunápolis (BA) - 2022, Imepac Itumbiara (GO) - 2023, INAPÓS em Pouso Alegre (MG) - 2024 e IMEPAC Araguari (MG) - 2025.
Atualmente, excluindo a IMEPAC Araguari e a Unesulbahia, os institutos do grupo operam sob um novo nome: Faculdade Zarns. Segundo o CEO, a procura pelo novo nome surgiu da necessidade de escrever uma nova história, se desvencilhando de outros grupos com os quais dividiam as marcas anteriormente. Além disso, sob a gestão da Clariens, toda a rede segue o projeto pedagógico EDUCAR, um acrônimo para os seguintes valores: Excelência, Diversidade, UX e Inovação, Cuidar e gostar de gente, Aprendizado contínuo e Respeito e colaboração.
A empresa, que se orgulha em ter seu portfólio completamente centrado nas ciências médicas, conta com quatro das suas cinco faculdades com nota máxima no MEC, a exceção sendo a Unesulbahia, pontuando quatro no Conceito Institucional (CI); entretanto, a instituição afirma, em seu site, ter obtido nota 5 no MEC. Além da graduação, a rede também conta com cursos livres, pós-graduação e residência médica, contribuindo para o objetivo que informa em seu site: “formar profissionais com princípios humanísticos e éticos, atentos às necessidades da sociedade”.
O crescimento repentino não parece assustar a Clariens. Em um texto de comemoração aos três anos da empresa, publicado no site da Unesulbahia, o Dr. Bruno Bezerril, diretor de pesquisas da rede, interpreta a história da instituição como uma grande vitória. No cenário da educação médica do Brasil, definido como “circo dos horrores” pelo doutor, enquanto enfrenta “gigantes de papelão” e “empresários entediados”, a Clariens seria uma empreitada ousada e inovadora, que reacende o brilho nos olhos de estudantes que “nunca tinham visto o que é ser formado de verdade”.
Ao finalizar o texto comemorativo, Bruno Bezerril conclui: “Três anos. Parece pouco. Mas, para quem conhece os bastidores, parece milagre. Um milagre laico, planejado, auditado e com resultados mensuráveis. Um milagre com nome, CPF e currículo Lattes”.
Faculdades geridas pela Clariens:

Salvador-BA

Eunápolis-BA

Araguari-MG

Salvador-BA
Imagens reproduzidas dos sites oficiais das faculdades

À prova
Em 2025, quatro dos cinco cursos de medicina da Clariens foram avaliados por meio do Enamed. De modo que somente o curso, ainda jovem, ofertado pela Faculdade Zarns em Pouso Alegre (MG) - antiga INAPÓS - tenha ficado de fora da avaliação. Com 56% e 50% de alunos proficientes, respectivamente, a Faculdade Zarns Salvador e a Unesulbahia obtiveram conceito 2 no exame. Já a Zarns Itumbiara com 34,5% de estudantes proficientes obteve conceito 1. Por fim, a IMEPAC Araguari foi a melhor conceituada pelo MEC; com 75,5% de alunos proficientes, a faculdade teve 4 como conceito obtido.
Conceitos atribuídos Clariens
Fonte: Ministério da Educação (Elaboração dos autores)
Para entender melhor o que pode ter gerado os resultados das faculdades do grupo, entramos em contato com a Clariens por meio de seu e-mail oficial divulgado em seu site. Contudo, não obtivemos retorno da holding até o momento de fechamento desta matéria. Além disso, buscamos conversar com ao menos um estudante da instituição de maior nota e com a faculdade de menor nota.
O diálogo feito com uma estudante começou com um contato por meio do Instagram. Logo após a identificação do conteúdo da mensagem pelo jornalista, que solicitava uma entrevista sobre o cotidiano da universidade, a estudante, que correspondeu o contato, solicitou a troca de canal da conversa para o seu WhatsApp pessoal. Somado a isso, avisou que somente daria a entrevista com o consentimento da instituição.
No novo espaço de diálogo, de modo enfático, o repórter foi incentivado a enviar o formulário de perguntas a serem feitas e a explicar, por duas vezes, o objetivo do contato. Ao fim da segunda explicação, a estudante solicitou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) da entrevista, documento desnecessário para produções jornalísticas de interesse público. Finalmente, ao ser informada da não obrigatoriedade, a aluna não retornou o contato. Apesar disso, o contato com uma estudante de outra unidade do grupo foi bem sucedido.
Melissa Bernardes Rangel está no quinto semestre de seu curso, ou seja, cursa medicina na universidade há dois anos e meio. Ela afirma que a infraestrutura da escola é muito boa, com bons materiais e uma biblioteca completa. Além disso, conta que muitos dos professores da instituição são novos, substituindo docentes com os quais os estudantes já haviam criado laços e que viam qualidade antes da troca de gestão.
A estudante já era matriculada quando a instituição foi adquirida pela Clariens, relata que a transição foi compreendida por muitos como confusa. “Fomos informados de que haveria uma transição administrativa, mas não recebemos muitos detalhes sobre o que efetivamente mudaria”, conta Melissa. Além disso, a incerteza não era exclusiva dos estudantes: “Inclusive, muitos professores e coordenadores também pareciam não ter informações claras sobre como seria o funcionamento a partir daquele momento. O que acabou gerando um certo clima de incerteza tanto entre os alunos quanto entre os próprios docentes”, completa.
A transição, que também trouxe metodologias ativas presentes em um novo currículo pedagógico, não foi a única responsável por mudanças na unidade. A estudante conta que os resultados do Enamed tiveram impactos no modo pelo qual os estudantes são avaliados. Com as novas mudanças, a média mínima para aprovação passa a ser de 70% ao invés de 60% e provas teóricas passam a ter a maior parte do peso nas avaliações, chegando a 60%, valor que antes era atribuído a provas práticas.
Melissa explica que as decisões foram justificadas aos estudantes: “Segundo o coordenador do ciclo básico, essas mudanças foram feitas porque a unidade teve um bom desempenho no Enamed e a intenção da instituição é manter ou até melhorar esses resultados. Por isso, eles adaptaram o formato das avaliações para ficar mais próximo do modelo da prova, como uma forma de preparar melhor os alunos”.
Por entre reais, dólares e dirhams
Em um processo árduo de invenção e reinvenção, percebe-se que a Clariens teve um crescimento rápido: foram cinco faculdades completas compradas em um período de três anos, somando-se a isso a pretensão de aumento exponencial deste portfólio. Ao pensar sobre todo esse panorama, o que intriga é refletir como o lucro faz toda essa roda girar; e a verdade é que a sua origem sempre esteve muito clara e de muito fácil acesso: basta clicar na aba “investidor” no topo do site da holding.
A Clariens é controlada pela Mubadala Capital, uma empresa que gerencia ativos alternativos de diversos tipos, incluindo o que o site da empresa chama de “oportunidades especiais” com foco no Brasil. Ela, por sua vez, é subsidiária da Mubadala Investment Company, um fundo de investimento estatal dos Emirados Árabes Unidos (EAU), que investe em diferentes ativos pelo globo, diversificando a economia do país.
A empresa gere 330 bilhões de dólares em ativos em mais de 50 países e se baseia na visão do “pai fundador” dos EAU, Sheikh Zayed bin Sultan Al Nahyan. O homem, que foi presidente dos Emirados por mais de 30 anos, foi responsável pelo crescimento exponencial do país, fruto da descoberta de grandes recursos petrolíferos na década de 50. Para impulsionar a riqueza originária da exploração destes recursos surge, nos anos 80, a Petroleum Investment Company (IPIC) e, mais a frente em 2002, a Mubadala Development Company, que investia em mais setores além do petróleo. A Mubadala Investment Company é fruto da fusão de ambas em 2017.
No Brasil, local onde está presente desde 2012, a Mubadala é proprietária da Rota das Bandeiras, concessionária responsável pela gestão do corredor Dom Pedro, que liga Campinas (SP) à Jacareí (SP), além disso, também administra o Porto Sudeste, importante terminal marítimo localizado em Itaguaí (RJ). Sob a jurisdição da Mubadala capital, também gere a Zamp, empresa responsável pela gestão das redes de fast food Burger King, Popeyes e Starbucks no Brasil, também é investidor majoritário do Metrô Rio e gestora, via IMM Esporte & Entretenimento, do Rio Open, o maior torneio de tênis da américa do sul.
A Mubadala não esconde, nem camufla, seus objetivos; ela os diz de maneira assertiva e direta em seu site: “A Mubadala é um investidor ativo e inovador que aloca capital em uma variedade de ativos, setores e regiões para o benefício dos Emirados Árabes Unidos”. Enquanto a Clariens busca excelência médica com ética e compromisso científico, seu “mundo melhor” visto de longe e coberto por outras faces de uma boneca russa, performa junto a sanduíches, cafés, rodovias, torneios e trens: linhas que sobem e descem em um gráfico.
Quando a medicina é transformada em ativo para benefício de um país do outro lado do globo, resta a dúvida de por onde circula o nosso dinheiro, mas, mais do que isso: quanto, de verdade, vale a morte de um brasileiro para o mundo? Precifique em reais, dólares e dirhams.