

Boneca Russa
Indicadores do ensino e financiamento avaliam o funcionamento da medicina privada no Brasil
Mercantilização do ensino de medicina
Por Ana de Angelis, Davi de Almeida, Lucas Veras e Sophia Pacheco
Nos corredores de faculdades por todo o Brasil, o burburinho crescente entre os estudantes de medicina não é, dessa vez, sobre personalização de jalecos, atléticas ou formatura. Na tensão entre uma aula e outra, a formação de excelência dos nossos futuros médicos começa a ser observada e medida com outros parâmetros, outra sigla. E, no centro desse novo capítulo, está o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).
Criado em abril de 2025 pelo Ministério da Educação (MEC) e com a primeira aplicação feita em outubro do mesmo ano, o Enamed é a nova forma de avaliação da qualidade dos cursos de medicina brasileiros. A proposta é unificar, em uma única prova anual, a verificação transparente do desempenho dos estudantes, bem como reunir dados que contribuam para a melhoria dos cursos, otimizar o acesso à residência médica e garantir a integração e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Anteriormente, a análise era realizada por meio do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), aplicado obrigatoriamente em todos os cursos de graduação em ciclos trienais. No caso específico do curso de medicina, o modelo permaneceu em vigor por 21 anos, até ser oficialmente retirado do processo examinador.
Com a mudança, a responsabilidade é transferida ao próprio Enamed, que assume o papel de principal instrumento federal de aferição do desempenho médico-universitário. A partir da implementação do novo exame, são os estudantes do último ano que passam a ser avaliados, com base nas competências e habilidades das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs).
Em adição, a avaliação estabelece cinco níveis de desempenho (conceitos de 1 a 5) com base em padrões mínimos definidos por especialistas de diferentes áreas. A partir desses padrões, foi criada a Matriz de Referência Comum para Avaliação da Formação Médica, que serve de fundamento para os exames que envolvem essa esfera, principalmente o Enamed. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), essa matriz permite abordagens diferentes na aplicação das provas e garante que os processos de elaboração estejam alinhados às competências das DCNs.
Para Alessandra Carla de Almeida, docente da graduação de medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e avaliadora de cursos do MEC, o exame representa uma discussão mais ampla, especialmente para identificar lacunas nos critérios educacionais. “Há uma necessidade real de médicos, principalmente em regiões mais remotas do país, mas entendemos também que é essencial que esses médicos sejam médicos bem formados. A questão não é só quantidade, mas é qualidade da formação”, avalia Alessandra.
Quanto ao Enade, cabe uma diferenciação. O diagnóstico, realizado no modelo anterior, é diferente do atual chamado Conceito Enade, um indicador institucional do MEC que averigua e classifica a capacidade e desempenho das formações superiores.
É calculado, dentre outros parâmetros, a partir da performance de pelo menos dez alunos no Enamed; do Conceito Preliminar de Curso (CPC); de visitas in loco à faculdade; da qualidade docente e do Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD). As notas obtidas podem variar de 1 a 5, em que 1 e 2 são considerados insuficientes pelo MEC e de 3 a 5, satisfatórios. Em casos que não atingiram os critérios mínimos para a aferição, o curso pode receber a classificação “Sem Conceito” (SC).
Ainda de acordo com Alessandra, a vinculação do desempenho dos estudantes ao indicador institucional também gera atenção por parte das instituições. “Existe, sim, uma preocupação do resultado do Enamed refletir um desempenho institucional inadequado. Ao mesmo tempo, há uma valorização do seu papel no aspecto regulatório”, declara. Para a avaliadora, o Conceito Enade deve envolver, justamente, uma avaliação que ultrapassa o desempenho dos estudantes, considerando três dimensões principais: o corpo docente, o projeto pedagógico e a infraestrutura das instituições.
Uma questão que precisa ser destacada é que o Enamed também vem para estimular o aumento da adesão ao Exame Nacional de Residência (Enare), considerado o principal processo seletivo unificado para programas de residências médicas. Com a instituição de exame específicoo, a nota obtida passa a compor a pontuação do Enare, substituindo a prova tradicional de “Acesso Direto” como etapa isolada.
O processo
A primeira avaliação Enamed iniciou oficialmente com as inscrições obrigatórias, abertas entre 7 e 18 de julho de 2025. Três meses depois, em 19 de outubro, os estudantes prestes a concluir a graduação de medicina fizeram a prova em uma aplicação simultânea em todo o país. O exame contou com 100 questões objetivas de múltipla escolha.
O sistema de pontuação foi disponibilizado pelo Inep por meio de notas técnicas, combinando o Método de Angoff Modificado (um método tradicional em que especialistas definem a nota de aprovação de acordo com a dificuldade de cada questão), com a Teoria de Resposta ao Item (TRI), a mesma utilizada pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Esse cálculo leva em consideração: o número de estudantes participantes com resultados válidos no exame; o desempenho dos estudantes participantes, na escala definida; e o percentual de concluintes com desempenho “proficiente” de cada curso. Ou seja, enquanto o Método Angoff Modificado define o padrão mínimo de desempenho, a TRI calcula de maneira geral o desempenho dos estudantes no exame.

O ciclo foi concluído apenas em 12 de dezembro do mesmo ano, quando o Inep, em conjunto com o MEC e o Ministério da Saúde (MS), divulgaram os resultados, acompanhados dos dados consolidados e dos microdados da avaliação.
A divulgação marcou o encerramento da primeira edição do exame e abriu caminho para análises mais detalhadas sobre o desempenho dos estudantes e das instituições de ensino. Os dados passaram a permitir comparações entre cursos, regiões, universidade, entre outros, além de oferecer subsídios para o acompanhamento da atuação de políticas públicas para a área.
Especificidades dos dados
Na primeira edição, realizada em 2025, 351 cursos de medicina foram avaliados. O número não corresponde necessariamente ao total de graduações em funcionamento no Brasil, que ultrapassa 448, segundo o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, mas sim ao conjunto de cursos que atenderam aos critérios de instituição e condições de oferta elegíveis para realizar a avaliação.
Na prática, isso significa que nem todas as faculdades em atividade entraram na execução inaugural do exame. A maior parte das instituições averiguadas foi composta por universidades federais e privadas, com ou sem fins lucrativos, que já possuem turmas em fase de conclusão e operam sob supervisão recorrente do MEC.
Assim, cursos mais recentes ficaram de fora desta primeira avaliação. Um exemplo são as aprovadas e instituídas nos últimos anos, geralmente com menos de cinco anos de funcionamento, e que ainda não possuem estudantes no último ano da formação médica (público-alvo). A tendência é que essas instituições passem a integrar as próximas edições à medida que suas primeiras turmas vão chegando próximas à formatura.
Na investigação dos dados, há ainda outra questão metodológica relevante: algumas instituições aparecem repetidas nas planilhas. Isso ocorre porque o cálculo é feito por campus, logo, uma mesma Instituição de Ensino Superior pode ter unidades diferentes avaliadas separadamente, cada uma com seu próprio conjunto de estudantes e, portanto, seu próprio conjunto de resultados.
Ao delimitar critérios mínimos de participação, estabelecer a distinção entre nota individual e conceito institucional, MEC e Inep buscam tornar a leitura dos dados mais precisa e comparável, permitindo diferentes cruzamentos de informações.
Entre notas e conceitos
Ao todo, no universo amostral, a base de dados do exame reuniu 89.024 participantes, entre eles estudantes e profissionais de medicina, dos quais 75% obtiveram desempenho “proficiente”, ou seja, uma nota mínima de 60 pontos na prova. Desse total, 39.258 eram estudantes concluintes do curso (67% obtiveram proficiência) e 49.766 eram “público geral” (81% alcançaram proficiência).
A nota de corte, ou nota mínima, define a faixa do Conceito Enade. Esse indicador é uma variável discreta que possui uma escala com valores que resultam da conversão de notas do Percentual de Concluintes com desempenho Proficiente (PCP²) de cada curso. O Inep alerta que esse ponto de corte deve ser mantido ao longo das demais edições do exame.
Por meio da porcentagem de proficiência dos estudantes concluintes, são determinadas nas faixas 1 a 5, a nota de conceito determinada a cada curso. De acordo com as regulações do MEC, aqueles com nota 5 obtiveram percentual igual ou superior a 90% de alunos proficientes, já os com 4 alcançaram desempenho entre 75% a 89,9%, enquanto a nota 3 está situada nos percentuais entre 60% e 74,9%, determinando a nota de corte mínima (60%). Já os com conceito 2 apresentaram entre 40% e 59,9% de alunos proficientes e na faixa 1, até 39,9% de proficiência.
Relação Conceito Enade e Percentual de Proficiência
Tabela 01

Fonte: Ministério da Educação (representação elaborada pelos repórteres)
Tabela 02

Fonte: Ministério da Educação (representação elaborada pelos repórteres)
Dos 351 cursos avaliados no Conceito Enade na primeira edição do exame, no total, 49 obtiveram nota 5, 114 nota 4, 80 alcançaram nota 3, 83 foram avaliados com nota 2 e 24 com nota 1.
Visualização dos conceitos nas três esferas
Fonte: Ministério da Educação (representação elaborada pelos repórteres)
Entre as instituições avaliadas, 127 foram de universidades públicas, sendo: 40 com conceito 5 (dentre elas 18 estaduais, 21 federais e 1 municipal); 64 com nota 4 (15 estaduais, 49 federais e nenhuma municipal); 11 com nota 3 (5 estaduais, 6 federais e nenhuma tuimunicipal); 8 com nota 2 (1 estadual, 3 federais e 4 municipais) e 4 com nota 1 (nenhuma estadual, 1 federal e 3 municipais).
Desempenho dos cursos nas públicas
Fonte: Ministério da Educação (representação elaborada pelos repórteres)
Outro dado a ser destacado é que 11 das organizações acadêmicas são de regime “Especial”, ou seja, em sua maioria pagas, mas mantidas pelo Estado e não possuem fins lucrativos. Elas performaram desempenho com uma nota 4 e uma nota 5, assim como 3 notas 3, 2 e 1.
Ao considerar, então, as restantes 212 Instituições de Ensino Superior, 36 delas são comunitárias/confessionais, que também são pagas, porém sem fins lucrativos. Dessas, 1 obteve nota 5, 16 com notas 4, 17 com 3, 2 com nota 2 e nenhuma com nota 1. As demais sem fins lucrativos, porém sem associação confessional, representam 63 em seu total, entre as quais 4 delas conceituaram nota 5, 20 com notas 4, 18 alcançaram 3, 17 com notas 2 e 4 com nota 1.
Conceitos por tipo de financiamento da instituição
Fonte: Ministério da Educação (representação elaborada pelos repórteres)
Por fim, foram avaliados 113 cursos privados com fins lucrativos, sendo eles: 3 com nota 5; 13 com nota 4; 31 na média com nota 3; 53 com nota 2; e 13 com nota 1. A partir da definição de um enquadramento, e considerando as repercussões midiáticas acerca do desempenho das faculdades no Enamed, as faculdades privadas com fins lucrativos que possuem maior incidência de notas 1 e 2 foram objetos de atenção especial pela equipe de reportagem.
O recorte situa 66 resultados com notas 1 e 2 entre as faculdades privadas, que representam 58,4% das instituições privadas com fins lucrativos. O total de estudantes que participaram do exame nessa categoria de privadas foi 15.409, porém apenas 57,2% deles obtiveram resultado proficiente para o curso de medicina. Tais resutados indicaram que esses centros de ensino, estando abaixo da média esperada, devem passar por ações de supervisão, assim como as demais 41 outras instituições sem fins lucrativos que obtiveram notas abaixo do esperado pelo Inep na avaliação do Enamed.
Esse processo de supervisão representa aplicação de medidas cautelares de forma escalonada, conforme o percentual de concluintes considerados proficientes. Para os cursos com conceito 1 em que apenas 30% de concluintes foram proficientes na avaliação, essas medidas prevêem suspensão de ingresso; já os com percentual de proficiência entre 30% e 40% a cautela indica que terão redução de metade da oferta de vagas. Já na faixa 2, os cursos com 40% a 50% de concluintes proficientes passam por redução de 25% das vagas. Além de serem impedidos de ampliar a quantidade de vagas, também terão sua participação suspensa no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e em outros programas federais. Por fim, aqueles com percentual de proficiência acima de 50% sofrerão apenas a proibição de aumento de vagas, sem medidas cautelares adicionais.
As medidas devem durar até a publicação do Conceito Enade 2026. Quanto maior o risco ou ameaça ao interesse público e/ou aos estudantes, mais severas serão as medidas adotadas.
O mercado da educação médica
Somente entre 2024 e 2025, 70 novos cursos de Medicina foram autorizados pelo MEC, segundo a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Os dados refletem somente uma parte de um mercado que entre 2014 e 2023 mais que dobrou o número de vagas ofertadas para cursos de medicina. Segundo a Demografia Médica, a quantidade de candidatos por vaga caiu de 46,51, em 2014, para 18,81, em 2023.
O aumento dos cursos privados de medicina elevou a oferta para 79,3% das vagas disponíveis no Brasil. Com mais opções de ingresso há uma certa redução na competitividade para acesso nas particulares: são 7,17 candidatos por vaga, quase 10 vezes menos que nas públicas, que tem 68,50 candidatos disputando uma vaga, conforme dados da Demografia. Concentrando a maior parte das possibilidades de matrícula, a questão sobre o desempenho dos estudantes nesse tipo de IES é ainda mais preocupante, já que 58% dos cursos das faculdades particulares com fins lucrativos avaliadas obtiveram notas 1 e 2 no Enamed.
No bojo das mantenedoras dessas faculdades, dois grupos educacionais destacam-se: a Afya e a Clariens Educação. As duas empresas são do tipo holding, ou seja, detém ações (parciais ou totais) de outras empresas e atuam somente na administração e no investimento delas. Ambas são focadas no ramo da educação médica e, nos últimos anos, têm comprado diversas faculdades e centros universitários privados por todo o país; a Clariens, com uma participação tímida, detém 5 instituições, enquanto a Afya possui mais de 30.
Mas, mesmo com diversas faculdades sob o controle dessas duas empresas que, aparentemente, as adquiriram para melhorar seu ensino, os fatos não demonstram isso:
Comparação entre os conceitos da Afya e Clariens (faculdades avaliadas)
Fonte: Ministério da Educação (Elaboração dos autores)
Das 22 faculdades sob controle da Afya avaliadas no Enamed, 13 obtiveram conceito 2, o que já as posiciona na zona de sanções e cautelas; e, em uma perspectiva geral, apenas duas de suas faculdades alcançaram o conceito 4. Ao analisar a Clariens, os dados são mais alarmantes: duas faculdades, uma em Salvador e outra em Itumbiara, receberam respectivamente 2 e 1 nos conceitos do Enamed. Correlações entre a gestão das empresas e a qualidade do ensino parecem muito precipitadas para serem feitas, mas padrões podem ser observados.
Estas empresas educacionais estão espalhando seus negócios por todo o Brasil, inclusive tratando as instituições como ativos financeiros. Isso pode ser notado em seus próprios websites, que possuem listas com as instituições sob controle e documentos de finanças expondo os ganhos com cada um desses negócios universitários.
Apesar da sua atuação se limitar a administrar e investir nas faculdades, mudanças já podem ser observadas por todo o espectro institucional, evidenciando possíveis interferências em consequência do controle da Afya e da Clariens Educação, as quais podem ser explicadas com uma análise de suas organizações financeiras.
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